Presidente executivo da entidade defende industrialização como mudança de método, cobra conformidade técnica ao longo da cadeia e comenta impactos esperados da reforma tributária
A indústria de materiais de construção quer puxar a construção brasileira para um patamar mais previsível — em produtividade, qualidade e competitividade — por meio de três eixos: industrialização, digitalização (BIM) e conformidade técnica.
A Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção – ABRAMAT conecta a rede fabril nacional, e atua como fomentador da demanda de mercado e promotor de conformidade técnica e fiscal.
A entidade produz indicadores mensais, como o Índice ABRAMAT (faturamento) e o Termômetro ABRAMAT (sondagem com associados sobre desempenho do mercado, intenções de investimento, uso de capacidade instalada e percepção sobre ações do governo).
Nesta entrevista ao Motriz, Paulo Engler, presidente executivo da ABRAMAT, explica como a entidade enxerga os gargalos para ganho de escala da construção industrializada no Brasil, descreve o BIM como integração de processos ao longo do ciclo do empreendimento e defende mecanismos que facilitem a identificação de produtos conformes às normas técnicas brasileiras.
A seguir, publicamos a entrevista na íntegra.
1) No canteiro, “industrialização” ainda é palavra que muita gente usa sem combinar o que significa. Quando vocês falam disso, estão falando de quê exatamente: sistema construtivo, processo, projeto, logística, tudo junto?
Tudo junto. Para que se possa efetivamente industrializar a construção todos estes aspectos tem que ser considerados e ajustados. É uma outra forma de pensar e agir, o projeto tem que ser pensado para industrialização, o planejamento da obra muda, a logística também. E o mais importante é que cada empreendimento terá uma solução mais adequada para industrialização, que pode ser de partes ou do todo.
2) O que mais impede a construção industrializada de ganhar escala no Brasil hoje: custo, cultura, norma, mão de obra, financiamento, ou compra pública?
Os desafios para o ganho de escala são diversos, dependendo do segmento de mercado – por exemplo, no segmento de obras de uso comercial e industrial já há forte presença de soluções e sistemas construtivos industrializados que visam redução de prazo de execução para que se possa auferir rapidamente receitas com a operação da edificação; da mesma forma, no segmento de obras de infraestrutura há muitas situações em que a padronização e o rígido controle de qualidade exigido viabilizam a industrialização em escala. Os maiores desafios estão no segmento de obras habitacionais, pois há gargalos de tributação, modelos de financiamento, cultura do consumidor/usuário da edificação, e também nos modelos de contratação de obras públicas. Propostas de soluções destes desafios tem surgido em várias iniciativas do setor e do Governo Federal, com destaque para o Projeto ConstruaBrasil, coordenado pelo MDIC com ampla participação e contribuição das entidades do setor, em que foram desenvolvidos estudos e propostas sobre modelos de contratação públicas, modelos de financiamento, e normas de coordenação modular. No evento que realizamos na FEICON em 07 de abril foi lançado, no âmbito deste projeto, o primeiro de cinco cursos gratuitos em formato EAD sobre Construção Industrializada para todos os públicos de interesse, visando alinhar terminologia técnica, e dar orientação básica para todos os agentes da cadeia produtiva e contratantes públicos e privados.
3) Em obra popular e em obra privada, onde a industrialização entrega ganho mais rápido: prazo, desperdício, qualidade, previsibilidade ou segurança?
Todas estas entregas ocorrem em obras públicas e privadas, indistintamente.
4) BIM virou assunto obrigatório. Na prática, qual é o ganho real para quem projeta e para quem está na obra? E onde ainda se vende BIM como “enfeite” e não como método?
O BIM promove a digitalização e integração de diversos processos em todas as fases do empreendimento, desde a concepção até a fase de uso, operação e manutenção da edificação. Não é somente uma ferramenta de projeto ou de apoio na execução da obra. São muitos os ganhos quando o BIM é adotado pelos diferentes agentes envolvidos no empreendimento – elimina retrabalhos, elimina interferências, reduz prazos, permite a simulação digital prévia de diferentes soluções permitindo tomadas de decisões com menor custo, eficiência e abrangência, no planejamento de execução, na especificação de materiais que vão promover desempenho da obra, entre tantos outros.
5) Vocês tocaram num ponto sensível: não conformidade de materiais, especialmente em marketplace. O que mais preocupa hoje: produto falsificado, produto sem norma, informação ruim, ou fiscalização fraca?
A não conformidade técnica significa a oferta de produtos que não atendem aos requisitos mínimos estabelecidos nas normas técnicas brasileiras, e que por este motivo vão gerar prejuízos e riscos aos consumidores. No caso dos marketplaces não há exigência prévia de informação sobre a comprovação de conformidade com as normas brasileiras nos produtos anunciados. Estamos trabalhando para mudar isso.
6) Como isso afeta a ponta do projeto: o que muda para arquitetos e engenheiros na hora de especificar e garantir que o que foi especificado é o que chega na obra?
Para o projeto é fundamental que os profissionais tenham as informações acerca das marcas e produtos que efetivamente atendem às normas. Para isso devem consultar a página do MCidades / PBQP-H que traz os grupos de produtos que tem conformidade avaliada pelos Programas Setoriais da Qualidade (PSQs) ou verificar a existência de Selos de qualidade do INMETRO no caso dos produtos regulados, como é o material elétrico. Garantir que o que foi especificado chega efetivamente à obra passa por verificação da identificação dos produtos desde sua origem e para isso pode ser utilizada a leitura dos códigos de barras e checagem da informação correspondente na NF – código GTIN.
7) Foi citado um aplicativo de consulta de conformidade. Como vocês imaginam o uso disso na prática: loja, obra, consumidor final, ou todos?
A ferramenta está em desenvolvimento, mas dará fácil acesso para todos os públicos às listas de produtos e marcas qualificadas nos PSQs que mencionamos acima. Hoje já é possível consultar essa lista e o aplicativo vai tornar mais amigável sua navegação.
8) A indústria diz que atingiu alto padrão técnico, mas que falha em “comunicar valor”. O que falta para o consumidor entender que material conforme não é detalhe — é obra que dura?
Precisa haver comunicação mais eficiente que explique que há requisitos que são exigidos para cada produto em suas respectivas normas, e que estes requisitos são os que vão garantir segurança, desempenho adequado, durabilidade, sustentabilidade no seu uso nas obras. A partir daí deve se estimular que sejam buscados os produtos que tem avaliação do atendimento a essas normas (os produtos conformes) para que o consumidor fique confiante.
9) Como você enxerga o impacto da reforma tributária e de programas como Reforma Casa Brasil na qualidade e na competitividade do setor?
O real impacto da reforma tributária para o Brasil será promover justiça fiscal e concorrência leal entre os contribuintes, uma vez que mantém quatro novidades que irá beneficiar o país trazendo segurança jurídica, são elas: (1) o fim da substituição tributária certamente irá melhorar o fluxo de caixa da indústria e do varejo; (2) a extinção dos incentivos fiscais estaduais afetará positivamente o preço final aos consumidores e promoverá concorrência saudável no mercado; (3) não-cumulatividade plena conseguirá tributar apenas o valor agregado em cada etapa da cadeia produtiva não ensejando em bitributação; (4) a instituição do split payment servirá como um inibidor da elisão fiscal. Em relação ao “Programa Reforma Casa Brasil”, acreditamos que irá fomentar ainda mais o mercado de materiais de construção melhorando a performance da indústria e do comércio de materiais de construção, possibilitando aos brasileiros melhorar as suas moradias.
10) Para fechar: se você pudesse escolher uma mudança simples para reduzir patologia de obra nos próximos anos, qual seria?
Cumprimento das normas técnicas – de produtos, de projetos, de execução.