O executivo e o engraxate discute sucesso, vazio e o que realmente importa

Edson Spricigo, autor do livro O executivo e o engraxate, em retrato com braços cruzados
Edson Spricigo é o autor do romance O executivo e o engraxate

Há romances que se constroem menos pelo acontecimento e mais pelo encontro. Em O executivo e o engraxate, Edson Spricigo coloca diante do leitor dois personagens aparentemente opostos: Pedro Luís Vasconcelos Júnior, um executivo bem-sucedido, mas atravessado por uma sensação persistente de vazio, e José João Marcelino da Silva, um engraxate de vida simples, sustentado pela fé, pela família e por uma compreensão serena da existência.

A partir do diálogo entre os dois, a obra percorre temas como ambição, mérito, trabalho, fé e desigualdade social. O livro não rejeita a conquista material, mas questiona seus limites e o espaço que ela ocupa na vida de quem a persegue.

Capa do livro O executivo e o engraxate, de Edson Spricigo, com um executivo e um engraxate em contraste
Capa do livro O executivo e o engraxate, de Edson Spricigo

Em entrevista ao Motriz, Spricigo fala sobre a origem da história, a construção dos personagens e o tipo de reflexão que pretende provocar no leitor. Confira:

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De onde nasceu a ideia de colocar frente a frente um executivo “no topo” e um engraxate com uma vida simples? O que você queria provocar no leitor logo de cara?
Essa ideia surgiu com o tempo. A princípio, o propósito literário era outro: uma crônica sobre a felicidade dos pais com seus filhos. Com relação aos dois personagens, pelo menos do meu ponto de vista, eles representam a sabedoria — não só do executivo — junto com a humildade, e vice-versa. Isso pode ser simbolizado a partir de uma visão mais humanista, porque, quando os seres humanos, juntamente com os conhecimentos adquiridos, erram, mas são humildes para assumir esses percalços, eles evoluem para superar as dificuldades, atingir seus objetivos e suprir suas necessidades a partir dos resultados alcançados.

O Pedro Luís tem “tudo” e mesmo assim não está bem. Em que momento do livro você acha que o leitor percebe que o problema não é falta de conquista, e sim outra coisa?
Dependendo do ponto de vista de onde o leitor se situa pessoalmente ao acompanhar o desenrolar do diálogo: se ele é uma pessoa muito apegada às tarefas profissionais, não sabendo administrar sabiamente também o tempo necessário para a família, religião e lazer; ou se é uma pessoa ao contrário — eu faço parte desse tipo de leitor. Diria que isso fica mais claro a partir do momento em que Pedro Luís reconhece o seu erro, quando José diz que perdeu a casa em um incêndio, mas nenhum de seus entes queridos estava lá, e ele agradeceu a Deus depois do susto.

O José parece ser o oposto: pouca coisa, mas paz. O que sustenta essa serenidade dele — e o que você acha que mais incomoda o executivo quando olha para isso?
José executa o seu ofício com prazer. Mesmo tendo muitas dificuldades para adquirir bens supérfluos, para ele o mais importante é que as necessidades vitais para sua vivência com a família sejam supridas. Por outro lado, a ambição de Pedro Luís de se tornar Diretor-Presidente da Colline Plásticos S.A., as exigências comuns de produtividade em qualquer organização e o medo, além do normal, de que outros profissionais almejem o seu cargo — entre tantos conflitos — fazem com que ele se incomode diante da tranquilidade e da paciência de José no seu ofício.

O diálogo na praça é o ponto de virada. Se você tivesse que resumir em uma frase: que pergunta o José “planta” no Pedro Luís?
Quando o engraxate fala que, no exercício de sua profissão, conheceu muitos clientes com problemas difíceis de superar, mas que, com o passar do tempo, principalmente pela determinação dessas pessoas e pela ajuda de outras, entidades e instituições, conseguiram reescrever suas histórias.

O livro fala de ambição, mérito, sorte e fé. Na sua visão, onde as pessoas mais se enganam quando tentam explicar sucesso e fracasso só pelo “mérito”?
Se as pessoas não alimentarem um bom número de amizades, uma rede de contatos, não estiverem no local certo na hora certa — neste caso, experiência própria —, além de estarem sempre atualizadas sobre as mudanças de mercado e novas tecnologias, dificilmente conseguirão se destacar em qualquer ramo empresarial.

Esse tipo de história pode soar moralista se não for bem conduzida. Como você trabalhou para manter a narrativa humana, sem virar sermão?
Procurando demonstrar cuidadosamente que, na medida do possível, todos os personagens — são mais de trinta que dialogam — têm seus defeitos e qualidades, principalmente o executivo e o engraxate, junto com seus núcleos familiares.

O cenário é um país fictício. Por que você escolheu esse caminho em vez de ambientar numa cidade real? O que a ficção te deu de liberdade?
É um país fictício porque, caso contrário, eu teria dificuldades para mencionar nomes de lugares públicos, comerciais e marcas de produtos. A ficção me deu liberdade para misturar cenas do cotidiano vistas, sentidas e ouvidas por mim com a liberdade literária.

Você tem formação e atuação na área administrativa. O que dessa vivência aparece no jeito como você constrói o Pedro Luís e a lógica do “resultado a qualquer custo”?
Hoje, similar a mim, ele é semelhante apenas em relação ao planejamento financeiro, que utilizo para atingir objetivos necessários para ter uma vida digna no curto, médio e longo prazo, sempre ajustando projeções com o uso de planilhas e extratos bancários. Sobre a criação do personagem antes da mudança, baseei-me em uma biografia resumida de um executivo que li no livro A Estratégia do Olho de Tigre, de Renato Grinberg. Esse executivo passou a pensar apenas em si, sofreu um acidente aéreo, perdeu grande parte dos membros inferiores, ficou determinado a morrer e só a morfina controlava a dor. Ao ver a foto do filho ao lado da cama no hospital, decidiu lutar e reconquistou tudo o que havia perdido.

Para quem está lendo e se identifica com a rotina exaustiva e a sensação de vazio, qual é o primeiro passo possível (pequeno e concreto) para reorganizar a vida?
Assim como Pedro Luís, ser humilde, porque ninguém é perfeito, e procurar acolhimento nas pessoas do seu ambiente, seja familiar, religioso ou em antigas amizades.

Para fechar: que tipo de leitor você mais gostaria que chegasse ao fim do livro — e qual mudança você espera que aconteça dentro dele?
O leitor que pertença à Igreja Católica Apostólica Romana, ou leitores que, neste momento, estejam muito presos aos bens supérfluos, esquecendo-se do mundo ao seu redor. A obra propõe que o leitor reflita que, sendo mais humano e ajudando a diminuir a desigualdade social, ele se lembre de que está aqui na Terra apenas de passagem. O que ele fizer de bom para o próximo e para a sociedade será o seu verdadeiro legado. Quando falecer, o que realmente sobrará serão os seus restos mortais, muitas vezes abandonados em um túmulo, que nem sempre será visitado, muitas vezes apenas no Dia de Finados, e que com o tempo acaba sendo esquecido.

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