“Fomos inventados como país pela violência”, diz Vinícius Ferreira sobre romance noir ambientado no interior de Minas

Por Lauro Rocha

Corrupção, fanatismo religioso, desigualdade social e silêncio coletivo diante da violência atravessam o romance Não existe acaso no inferno, novo livro do escritor mineiro Vinícius Ferreira. Ambientada em Cataguases, no interior de Minas Gerais, a obra acompanha a investigação da morte de três crianças encontradas em um galpão abandonado registrado como igreja.

Professor de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Vinícius utiliza elementos clássicos do noir para discutir estruturas sociais brasileiras e ambiguidades morais que atravessam personagens e instituições.

Em entrevista ao Motriz Brasil, o autor fala sobre violência estrutural, corrupção, literatura noir e os limites éticos presentes em sua narrativa.

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“Nada é o que aparenta ser a princípio”

O título sugere uma ausência de acaso. Em que momento essa ideia se consolidou como eixo da narrativa?

O detetive Bartolomeu Franco está de folga. Planeja visitar o pai no asilo e ir se encontrar com uma mulher. Toca o telefone e tudo muda. E não é pelo acaso que o delegado se recusa a confiar a investigação da morte de três crianças a outro detetive. Tinha que ser ele. Tinha que ser, pois mais ninguém além dele parece disposto a recusar o silêncio como resposta.

O romance parte de um crime brutal em uma cidade do interior. O que esse cenário permite revelar sobre o Brasil que grandes centros, às vezes, ocultam?

Nas pequenas cidades do interior, a investigação de crimes costuma jogar uma luz incômoda sobre teias de relações que nos grandes centros tendem a parecer menos relevantes. Essas teias de relações permitem compreender bem como a corrupção e a impunidade vão sendo naturalizadas como práticas de sociabilidade e, muitas vezes, de sobrevivência.

A obra dialoga com a tradição do noir. O que te atrai nesse gênero como ferramenta para tratar de questões sociais?

O que me atrai no noir é a sua disposição para lidar com as sombras da alma humana, de poder visitar as ruínas, os escombros ocultos atrás das aparências. Nada é o que aparenta ser a princípio. Esse desmonte é semelhante à perda das ilusões. Passamos a ver as pessoas e as coisas como elas realmente são. E quando a máscara que usamos para a vida social é retirada, compreender as razões humanas fica mais simples. O mundo só é bonito no Instagram.

“O didatismo tem poder para empobrecer qualquer boa história”

O livro apresenta uma forte crítica à corrupção e ao fanatismo religioso. Como equilibrar denúncia e construção literária sem cair no didatismo?

Esse é um problema desafiador para todo ficcionista, eu suponho. Afinal, o didatismo tem poder para empobrecer qualquer boa história. Em “Não existe acaso no inferno”, procurei concentrar minha atenção muito mais no “inferno” particular das personagens, evitando que elas representem tipos cuja trajetória contenha algum exemplo. O fanatismo e a corrupção aparecem como decorrência dos dramas pessoais das personagens e não como temas exemplares. Não acho saudável para a literatura que uma narrativa se dedique a reformar o mundo. Se o leitor se sentir incomodado com o estrago que as ilusões e obsessões fazem aos personagens, os temas certamente vão estar lá, fazendo o que têm que fazer numa história ficcional.

A investigação conduz os personagens a uma ambiguidade moral constante. Esse desconforto ético é intencional para o leitor?

Tem que ser. Uma das coisas mais interessantes da narrativa noir é essa ambiguidade moral. Se ela leva o detetive a testar seus limites éticos, para o leitor ela deve funcionar como um chamado à reflexão. Ser considerado bem-sucedido e saudável numa sociedade que cultiva valores adoentados não pode deixar de ser objeto de preocupação.

“Naturalizamos a violência”

Há uma crítica ao silêncio social diante da violência. Você acredita que esse é um dos traços mais persistentes da nossa sociedade?

Sim. Não tenho dúvida. Fomos inventados como país pela violência. Somos uma sociedade que absorveu a violência e naturalizou a sua prática como marca de sociabilidade. Afinal, nós toleramos o escravismo por quase quatrocentos anos. Depois, quando esse sistema ruiu, transferimos a mesma forma assimétrica para o trabalho assalariado e continuamos a reproduzir uma lógica que faz uma grande parcela da população ser completamente descartável. O que mantém essa lógica funcionando é a naturalização da violência. Como dizia o Millôr Fernandes: “O Brasil ainda tem um longo passado pela frente”.

A origem da história, segundo você menciona, vem de um relato ouvido na infância. Como essa memória foi transformada em ficção?

É engraçado como uma mesma história pode tomar contornos inesperados em cada pessoa que a ouve. Meu tio, que foi quem me contou a história do corpo achado emparedado na cozinha de uma casa em demolição, nunca cogitou querer saber a identidade do cadáver. Para mim, no entanto, só de pensar que o cadáver tinha um nome, uma história, uma vida, que foram apagados sem deixar qualquer rastro de interesse em ninguém, me tirou o sono por algum tempo. Não era nem a impunidade o que me deixava mais indignado. O fato de o crime nunca ter sido sequer investigado. Minha indignação, o que me corroía quando criança, era que sobre aquela pessoa foi posto um silêncio que a fez desaparecer para sempre. Ninguém nunca reclamou aquele corpo, aquele nome.

“A literatura inventa a realidade”

Seus personagens carregam conflitos pessoais marcantes, como a relação familiar do protagonista. Até que ponto esses elementos humanizam a investigação?

Tanto em “Não existe acaso no inferno” quanto no “Noturno em Vista Alegre”, que é minha outra novela noir, os investigadores carregam conflitos pessoais marcantes. Portanto, acho que tenho como tendência dar mais ênfase às questões humanas do que a construir uma trama investigativa que desafie o leitor a adivinhar o final. Gosto de construir personagens intensos, que carregam dilemas morais, éticos, familiares, sociais, profissionais ao mesmo tempo em que tentam manter um mínimo de integridade em face de um mundo que se desmorona ao redor deles.

A literatura ainda é capaz de expor aquilo que a realidade insiste em normalizar?

Eu ainda acredito na literatura porque ela é capaz de inventar a realidade. Parece paradoxal, mas é a realidade da literatura que faz com que a gente compreenda melhor a ficção da vida.

Você pretende seguir explorando esse universo noir ou experimentar outros caminhos narrativos?

Eu já fiz outros livros, experimentando outros gêneros. Mas, para ser absolutamente sincero, acho que em todos eles o noir já andava pedindo para deixar de ser somente uma circunstância da minha ficção.

Publicado pela editora Faria e Silva, Não existe acaso no inferno tem 168 páginas e acompanha a investigação conduzida pelos personagens Bartolomeu Franco e Cenoura em meio a corrupção, fanatismo religioso e desigualdades sociais no interior mineiro.

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