A literatura brasileira sobre o período da ditadura militar frequentemente se divide entre o relato político direto e a reconstrução memorialista marcada pela idealização. Em Cinzas de Cogumelos Azuis, Sebastian Levati escolhe um caminho mais delicado e, por isso mesmo, mais complexo. Seu romance parte da experiência íntima dos personagens para reconstituir um período de repressão, medo e escolhas difíceis, sem perder de vista os afetos, as ambiguidades e as marcas que o tempo não apaga.
Ambientado entre os anos 1970 e o início da redemocratização, o livro acompanha Orlando, um jovem do interior que vai para São Paulo movido por inquietação política, e Clarice, personagem cuja origem familiar ajuda a expor tensões de um país fraturado. Ao redor deles, surgem figuras que ampliam esse retrato e dão densidade a uma narrativa interessada menos em slogans e mais na experiência humana sob pressão.
Mais do que reconstituir um período histórico, Levati procura compreender como seus efeitos continuam reverberando no presente. A violência, no romance, não aparece como espetáculo. A música, por sua vez, não cumpre apenas função de ambientação, mas se integra à própria estrutura narrativa, ajudando a revelar o que os personagens nem sempre conseguem dizer.
Nesta entrevista ao Motriz, o autor fala sobre a construção de Cinzas de Cogumelos Azuis, comenta o papel da memória e da música em sua escrita e reflete sobre a permanência das marcas deixadas pela ditadura brasileira.

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Entrevista:
1) Seu romance percorre o período da ditadura até os primeiros anos da redemocratização. Em que momento o senhor percebeu que a história não terminava com o fim do regime, mas se estendia para além dele?
Percebi cedo que o fim formal do regime não encerrava suas marcas. Muitas delas permanecem na intimidade das pessoas, nos modos de relação e nas hesitações do próprio país. A narrativa pediu continuidade porque a história, na vida concreta, raramente se encerra em datas oficiais.Olhe para os lados e verás que ela nos acompanha.
2) Há no livro um esforço claro de evitar tanto a idealização do passado quanto a leitura puramente política dos acontecimentos. Como o senhor encontrou esse ponto de equilíbrio na escrita?
Procurei não simplificar a memória. Nem idealizar, nem reduzir tudo à política. Interessa-me a zona das ambiguidades, onde a experiência humana resiste aos rótulos. A literatura pode tornar o passado mais sensível sem transformá-lo em tese. Vive-se, aprende-se e acostuma-se. Vira rotina.
3) Orlando e Clarice vivem uma relação atravessada por tensões que não são apenas íntimas, mas também históricas. Em alguma medida, o senhor pensou esse vínculo como uma forma de traduzir o próprio país naquele período?
De certa forma, sim. A relação deles é atravessada por forças que ultrapassam o plano íntimo. Havia no país uma mistura de expectativa e incerteza que também reverbera entre os personagens. Não como alegoria direta, mas como ressonância.
4) A música aparece de forma recorrente — não apenas como ambientação, mas como algo que os personagens incorporam, cantam e vivem. Em que momento ela deixou de ser cenário e passou a funcionar como parte da estrutura narrativa?
Em determinado ponto percebi que a música revelava o que os personagens nem sempre diziam. Era tão rico o universo musical da época, que haveria sempre uma música recorrente para qualquer situação. Ela deixou de ser apenas ambiente e passou a funcionar como linguagem paralela, uma respiração interna da narrativa.
5) As canções citadas vieram da sua memória pessoal ou foram sendo incorporadas ao longo do processo de escrita como ferramenta de construção de época e atmosfera?
Algumas vieram da memória afetiva; outras foram surgindo durante a escrita. Com respeito às musicas, as escolhas eram mais fáceis. Mais do que pesquisa, houve uma escuta: que vozes ajudariam a tornar sensível o tempo vivido pelos personagens.
6) Em diversos trechos, a música parece suavizar — ou até tensionar — a dureza do contexto político. Esse contraste foi pensado como uma forma de tornar a experiência mais humana?
Sim, porque a vida não se torna inteiramente homogênea mesmo em tempos difíceis. A música revela fragilidade e resistência ao mesmo tempo, lembrando que o humano não se reduz ao peso da história.
7) O livro lida com a violência sem recorrer à espetacularização. Que tipo de escolhas o senhor precisou fazer para narrar esse período com força, mas sem transformar a dor em efeito?
Busquei sobriedade. A dor não precisa de excesso para se tornar presente. Por que cutucar feridas se elas são contínuas? Muitas vezes, a sugestão produz mais verdade do que a exposição direta. Confio na sensibilidade do leitor.
8) Como foi o caminho até a publicação? Um romance com esse recorte histórico encontrou resistência ou, ao contrário, interesse imediato?
Foi um percurso paciente. Trata-se de um livro que não se apoia em fórmulas rápidas, mas encontrou leitores e interlocutores atentos ao diálogo entre memória e experiência.
9) E depois do livro pronto e lançado, o que mais tem chamado sua atenção no encontro com os leitores?
Surpreende-me a diversidade de pontos de identificação. Alguns leitores se aproximam pela história, outros pela relação entre os personagens, outros pela música. O livro passa a existir de modos que ultrapassam o autor.