“A justiça é feita por pessoas naturalmente ambíguas”, diz Humberto Pimentel sobre romance policial

Retrato do escritor e procurador de Justiça Humberto Pimentel, autor do romance policial “Morte na fronteira”.
Humberto Pimentel é escritor, mestre em Direito e procurador de Justiça em Alagoas. Foto Divulgação

Por Lauro Rocha

Corrupção, dilemas éticos, falsas memórias e ambiguidades morais atravessam Morte na fronteira, novo romance do escritor e procurador de Justiça Humberto Pimentel. A obra acompanha Armando, um perito criminal aposentado que passa a atuar como advogado criminalista e se vê envolvido em uma investigação marcada por obsessões, zonas cinzentas da lei e disputas morais.

Publicado pela editora Labrador, o livro utiliza elementos clássicos do romance policial para discutir os limites entre ética, verdade e justiça. O protagonista, que utiliza cadeira de rodas depois de um acidente, atua ao lado da assistente Noemi em uma trama que mistura investigação criminal, existencialismo e crítica social.

Mestre em Direito e integrante do Ministério Público de Alagoas, Humberto Pimentel afirma que o romance busca explorar “as zonas fronteiriças, cinzentas, entre o certo e o errado”, aproximando suspense policial e reflexão filosófica.

Em entrevista ao Motriz Brasil, o autor fala sobre literatura noir, ambiguidade humana, existencialismo e a relação entre ficção e realidade.

Capa do livro “Morte na fronteira”, de Humberto Pimentel, romance policial publicado pela editora Labrador.
“Morte na fronteira”, romance policial de Humberto Pimentel, aborda corrupção, ambiguidade moral e os limites entre ética e justiça. Imagem Divulgação

“As zonas cinzentas são ambientes propícios para o suspense”

A ideia de “fronteira” parece central no livro. Em que momento você percebeu que essa seria a chave da narrativa?

A ideia de fronteira desde o início me ocorreu, muito embora ainda não estivesse totalmente claro o seu alcance metafórico. Meu pensamento era explorar a ambiguidade moral do ser humano. As zonas fronteiriças, cinzentas, entre o certo e o errado são ambientes propícios para o desenvolvimento de histórias de mistério e suspense. No livro há um local denominado fronteira, onde ocorre um homicídio. Mas há outras fronteiras, áreas de penumbra nas mentes dos personagens. Desse modo, o paralelismo entre as duas acepções da palavra fronteira foi um caminho natural.

Sua trajetória no Direito certamente oferece matéria-prima rica. Em que medida a realidade influencia a ficção — e onde você faz questão de se afastar dela?

Não há como eliminar totalmente a influência das memórias e da realidade. A literatura usa pequenos recortes de fatos com adaptações, mudanças, incrementos e supressões. Detalhes de casos reais podem servir de inspiração para o desenvolvimento de algo totalmente novo, em outro contexto. É importante não se deixar levar por recordações muito concretas, por se tratar de obra de ficção, sem aspecto documental. Faço questão de transmitir uma certa dose de inverossimilhança e de imprecisão, para que o leitor se lembre que está diante de uma caricatura da realidade.

O romance sugere que verdade, justiça e moral nem sempre caminham juntas. Esse é um diagnóstico do sistema ou uma provocação ao leitor?

A obra não alcança o sistema formal da Justiça, mas a justiça enquanto símbolo ético, no âmbito interno dos personagens. O leitor é conduzido por meandros mentais que, em certa medida, representam parcelas conscientes ou inconscientes dos seres humanos. O leitor é provocado a refletir sobre seus valores, mas também é apresentado a um universo ficcional que o transporta para uma posição em que pode contemplar uma realidade alternativa.

“Ele já entra em cena com suas cicatrizes”

O protagonista carrega marcas físicas e simbólicas importantes. Como você construiu esse personagem e o que ele representa dentro da história?

Armando é um personagem que foi construído ao longo da narrativa, apesar de seus principais aspectos já terem sido imaginados antes. Ao longo da trama serão dadas pistas e o leitor será capaz de compreender melhor a sua complexidade física e filosófica. Ele representa o acúmulo das vicissitudes que a vida impõe à maioria dos seres humanos, como revezes e frustrações. Ele escapa da imagem do herói sem defeitos morais, que passa por dificuldades durante a narrativa para ficar bem no final. Ele já entra em cena com suas cicatrizes e possui imperfeições de caráter.

Há um diálogo evidente com a tradição do romance policial. Quais autores ou obras você considera referências nesse processo?

Não há como falar em romance policial sem iniciar por Edgar Allan Poe e sua obra seminal: “Os assassinatos da rua Morgue”. Mas, para mim, a referência mais antiga e marcante é Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, exemplo de personagem mais famoso que o autor. Agatha Christie, com seus brilhantes detetives Poirot e Miss Marple, também são muito importantes. No Brasil, a grande referência seria Ruben Fonseca, seguido por Luiz Alfredo Garcia-Roza.

“A literatura amplia o repertório crítico do leitor”

A obra também flerta com questões existencialistas. Esse foi um caminho natural durante a escrita ou algo deliberado desde o início?

Eu havia imaginado discussões filosóficas, com opiniões opostas, entre os personagens Armando e Noemi, que são o protagonista e sua assistente. Cada um partiria, no início da história, com suas convicções e dúvidas, que evoluiriam durante a trama do livro, tendo à convergência. Durante a escrita, percebi que essas características poderiam ser trabalhadas de forma mais natural se tivessem alguma relação com o caso investigado. Então há provocações de caráter existencial em curtos debates teóricos, mas que são refletidos em decisões tomadas por personagens.

Em um cenário em que as instituições são frequentemente questionadas, qual é o papel da literatura ao tratar desses temas?

Nesse contexto, a literatura tem o papel de ampliar o repertório crítico do leitor, por meio da provocação do seu imaginário. Temas como a validade das provas criminais, vingança e falsas memórias são tratados sob a perspectiva ficcional, mas geram reflexões mais bem fundamentadas. Quando o leitor se deparar com notícias de casos reais, será inevitável fazer questionamentos e duvidar das versões apresentadas.

O livro rompe com a ideia clássica de heróis e vilões. Isso reflete uma visão mais contemporânea da justiça?

Prefiro levar o debate para o lado da natureza do ser humano, que é universal e atemporal. A epígrafe do livro cita um trecho do soneto Dualismo, de Olavo Bilac: “Não é bom, nem és mau: és triste e humano…”. A justiça, hoje e sempre, aqui e alhures, é feita por pessoas, que são naturalmente ambíguas. Em todas as áreas haverá conflitos e os seres humanos trazem as sementes desses conflitos em seu interior. Os impulsos mais íntimos, às vezes destrutivos ou autodestrutivos, nem sempre são freados pelos processos de adaptação social como a educação, a religião e o direito.

“Espero que o leitor descubra que a obra entrega mais do que promete”

O que você espera provocar no leitor ao final da leitura?

Espero prover o leitor de bons momentos, aguçando a sua curiosidade e surpreendendo-o com uma trama que subverte o que se espera de um romance policial. Há reviravoltas e suspense, assim como momentos de reflexão filosófica e religiosa. O leitor também encontrará leves traços de humor e de ironia. Partindo de aspectos culturalmente edificantes, passando pelo entretenimento inerente a um livro de ficção, espero que o leitor descubra que a obra entrega mais do que promete.

Você já trabalha em novos projetos literários ou pretende dar continuidade a esse universo?

Morte na fronteira é o meu segundo livro e eu diria que foi um experimento que deu certo. O relato de Nanna, minha primeira obra publicada, vai mais para o lado do realismo fantástico, sendo para mim um romance literário de alto valor. Morte na fronteira, por outro lado, ao ter despertado o interesse em discutir temas sensíveis e complexos, passou a exigir de mim uma continuação, de modo que pretendo seguir nessa linha, subvertendo convenções e trazendo momentos reflexivos. Em suma, pretendo dar continuidade a esse universo, mas com outro protagonista.

Publicado pela editora Labrador, Morte na fronteira tem 192 páginas e está disponível aqui.

RELACIONADOS

Big bags industriais utilizados para transporte e armazenamento de materiais a granel em operações logísticas e industriais.

ABNT cria certificação para big bags usados em cargas não perigosas

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) criou uma…

Sergio Gallucci aponta gargalos que travam a logística de armazenagem no agro

Com safra recorde e pressão crescente sobre a infraestrutura…
Prédio da Xiaomi - Foto: Xiaomi / Divulgação

Startup brasileira é selecionada para programa de IA da Xiaomi

A Looma, plataforma brasileira de infraestrutura para negócios digitais,…

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante pronunciamento oficial pelo Dia do Trabalhador

Lula anuncia novo Desenrola para a próxima semana com até 20% do FGTS

Rafael Cardoso – Repórter da Agência Brasil O presidente…
Vanessa Ribeiro Mateus, presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, em retrato institucional diante de estante de livros

Opinião: O que um editorial não diz

Por Vanessa Ribeiro Mateus, presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros…
Paulo Engler, presidente executivo da ABRAMAT, em retrato

Paulo Engler explica o que a ABRAMAT quer mudar na construção brasileira

Presidente executivo da entidade defende industrialização como mudança de…
Edson Spricigo, autor do livro O executivo e o engraxate, em retrato com braços cruzados

O executivo e o engraxate discute sucesso, vazio e o que realmente importa

Há romances que se constroem menos pelo acontecimento e…