Há edifícios que atravessam o tempo não apenas por sua solidez, mas porque permanecem significativos. O Grande Hotel Termas de Araxá pertence a essa categoria: uma obra que combina escala, intenção e memória, e que continua a provocar leituras ao longo das décadas. O lançamento do livro Sobre o tempo – Grande Hotel Termas de Araxá 80 anos reforça essa condição ao reunir pesquisa, narrativa e um olhar atento sobre o patrimônio mineiro.
Com 154 páginas, a obra traz fotografias contemporâneas de Léo Lara e um conjunto expressivo de imagens históricas provenientes dos acervos da revista O Cruzeiro e da Fundação Cultural Calmon Barreto. Os autores — os jornalistas Mariana Peixoto e Helvécio Carlos — escolhem uma abordagem que ultrapassa a cronologia e busca compreender as camadas de uso, sociabilidade e poder que moldaram o hotel desde os anos 1940.
Um dos episódios resgatados, registrado originalmente por David Nasser e Jean Manzon, relata a presença de uma expedição soviética em Araxá, em 1947, para observar um eclipse solar total. A cena é reveladora: um grupo de cientistas, preparado para condições adversas, encontra naquele período um dos hotéis mais luxuosos da América Latina. É um contraste que ajuda a dimensionar o impacto cultural do edifício na época — e a força simbólica que ele ainda carrega.
O projeto gráfico assinado por Gustavo Greco traduz essa atmosfera: valoriza o edifício como objeto de memória e reafirma seu papel como patrimônio vivo, sujeito a restaurações, revisões e novos olhares. O lançamento, previsto para 29 de novembro no próprio hotel, reúne profissionais ligados à arquitetura e ao restauro, numa discussão necessária sobre permanência e reinvenção.
Mais do que recordar fatos, o livro sugere algo essencial: obras como o Grande Hotel resistem porque seguem sendo revisitadas. O futuro das nossas referências arquitetônicas depende justamente disso — da capacidade de reconhecer o que permanece e de atualizar o que o tempo exige.